No começo funcionou. Eu tinha que tentar. E funcionou, funcionou mesmo e eu jurei que, além de você estar
morto, meu período de luto havia acabado. Experimentei dias de alegria e algo que posso quase chamar de felicidade.
Ou posso mesmo, porque felicidade é isso aí: os vinte e sete segundos antes do teto desabar na sua cabeça. Um dia eu acordei e
não estava mais lá. Nem eu, nem ele, nem nada daquilo que eu já estava julgando meu presente. Só tinha você. Você de novo.
Você naqueles dias castos. Você naqueles dias sujos. Você naqueles dias de paranóia, nos dias de cortina fechada, nos dias tão perto
do fim, quando eu ainda acreditava. Fechei os olhos cheios e te desapareci. Pensei, seu filho da puta, sai da minha casa, sai do
meu quarto, volta pro seu novo velho mundo, me deixa quieta, me deixa aqui, me deixa, me deixa. Foi tão fácil me deixar, então
me deixa de novo. Dormi assim, de manhã cedo, os olhos apertados e os dentes cerrados. Não sonhei. Quando acordei, você tinha
me obedecido. Mas agora eu sei que você vai voltar. Eu não quero ter mais um fantasma, eu não queria, eu não quero.
Vinte e sete segundos. Timeout blues. Eu tinha esquecido que era assim. Mas é assim que é.
Eu posso quase tudo. Ontem me dei conta disso. Tudo que eu quiser ou me permitir. E eu consigo tudo que eu quero, se realmente quiser. Tem gente que não consegue escrever porque os outros vão falar. Que não pode se tatuar porque vai atrapalhar. Que não pode viajar longamente porque o trabalho não deixa. Que não pode sair na rua sem alguém apontar. Eu faço o que eu faço em qualquer lugar, eu sou eu em qualquer lugar e isso me traz um alento e um alívio por eu não ser escrava de nada, empregada de nada, porra nenhuma. Alguns amigos acham que eu deveria ceder mais. Que eu deveria ter essa ou aquela experiência que melhoraria isto ou aquilo. E eu digo, eu estou bem assim, sem ceder. Eu vou arrumando uns caminhos tortos pra viver a minha vida e consigo passar por quase tudo. Às vezes eu empaco, mas que se foda. Às vezes batem a porta na minha cara, mas que se dane. Eu continuo fazendo as coisas do meu jeito. Que é o único jeito que funciona pra mim. Respeito todo mundo que faz de outro jeito. Respeito todas as escolhas de todo mundo. Mas não queiram que eu faça essas escolhas também. Eu crio a minha filha como eu acho que devo. Eu sou a mãe que posso ser. Eu faço o meu trabalho do meu jeito porque é assim que tem que ser. Eu vivo uma vida torta. Mas é assim que eu sei viver. Se fizesse de outro jeito ia perder a alma. Eu bebo porque eu gosto e preciso. E não vou parar de beber. Eu escuto as minhas músicas porque elas me dizem o que eu quero ouvir, ou o que eu preciso ouvir, e eu não quero ninguém me enchendo o saco por isso. Eu reclamo pra caralho. Eu sou terrivelmente ranzinza. Eu gosto de solidão e silêncio e preciso delas pra sobreviver. E é assim que é, assim que vai ser. Do meu jeito. Que é o jeito que eu sei fazer.
garotos,
por favor,
garotos!
comportem-se.
eu tenho recebido uns emails dos garotos querendo saber para quem eu tanto escrevo.
ora, eu tenho um muso.
e ele não é você,
e nem você.
ele sabe quem é
e só ele sabe tudo.
e só ele precisa saber.
a vocês cabe ler, pois são leitores.
quem sabe depois que eu morrer?
garotos,
por favor,
aprendam a ler sem se meter.
um beijo,
o amor é uma coisa muito humilhante.
você escuta o lou reed contando uma história e no meio dela tem "i'll come running to you honey when you want me" e pensa "é".
essa porra me dói aqui.
de novo.
falando de novo nem parece que ele é tão raro, amor é raro, isso tudo é raro, o enrubescimento é raro, a urgência é rara, a dor, ai a dor, ela é muito rara. porque sempre dói um pouquinho, mas quando dói assim fundo sem nem dar pra chorar eu começo a acreditar de novo e repito para mim mesma eu não acredito eu não acredito eu não acredito em nada disso, eu não quero nada disso que acontece na minha vida agora, nada das ruas nada das pessoas nada de nada de nada, eu só queria poder me afogar em você, só em você, eu não acredito. eu não acredito que esse filho da puta desse coraçãozinho de merda sucumbiu de novo, achei que não, que neste round eu ia ganhar, mas ele chega e me nocauteia bem assim de ladinho, despretensiosamente, sem nem saber de nada e se perguntando será que eu mereço? enquanto arranca a espada da pedra sem ofegar. é, o sol brilha e são duas e meia, mais um dia passa, mais um dia com você se infiltrando em mim e eu me rendendo, me rendendo, me rendendo, eu não acredito. não tenho nada. não tenho você, não tenho metade nem o dobro, não tenho nada. tenho o doce nada que você me dá. a doce perspectiva do nada. a morte. e lá se vai mais uma, mais um palito queimado, lá vou eu ladeira abaixo. mais uma morte no meu horizonte e tudo que eu posso fazer é continuar caminhando para ela. definitivo e inevitável, lá vou eu.
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